Aqui o caderno faz uma virada importante. Até agora, olhamos para a mãe e para o que aconteceu. A partir de agora, olhamos para você — para o que aquela relação deixou plantado dentro de você e que ainda hoje molda a forma como você se trata, se cobra e se enxerga.
Existe um fenômeno que eu vejo repetidamente na clínica: a voz de uma mãe narcisista não vai embora quando saímos de casa. Ela é internalizada. Aquela voz que criticava, que comparava, que dizia que você era exagerada ou insuficiente — ela não desaparece. Ela vira a sua voz interna. E aí está a crueldade mais silenciosa dessa ferida: mesmo que a sua mãe nunca mais diga uma palavra, você continua repetindo as palavras dela para si mesma, todos os dias.
É por isso que tantas mulheres adultas, bem-sucedidas, cercadas de pessoas que as amam, ainda se sentem pequenas. Ainda pedem desculpas demais. Ainda não conseguem receber um elogio sem desconversar. Ainda se cobram uma perfeição impossível e se punem por qualquer falha. Não é fraqueza de caráter. É uma voz instalada na infância que segue funcionando no automático.
E aqui está a boa notícia, a que muda tudo: se essa voz foi instalada, ela pode ser desinstalada. Você não nasceu se odiando. Aprenderam a você. E tudo o que se aprende pode ser, com trabalho e cuidado, reaprendido. O primeiro passo é conseguir distinguir: o que dentro de mim é a minha voz, e o que é a voz dela que eu confundi com a minha?
A voz que te diz que você não presta, que não é o bastante, que é um peso — essa voz não é a voz de Deus, e não é a sua verdade. Ela foi instalada por alguém que não conseguia enxergar o seu valor. Mas Deus, que te formou, te chama de assombrosa e maravilhosa. Onde a voz da ferida diz 'insuficiente', a voz do Criador diz 'formada com propósito'. Você pode escolher qual voz vai, aos poucos, aprender a ouvir.
Você não precisa resolver tudo agora. Só de olhar para isso com honestidade, você já deu um passo.